domingo, março 27, 2011

TIRA-ME TUDO, MAS MEU AMOR, NUNCA!



"Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu olhar.

Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria.
A repentina onda de prata que em ti nasce.


A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar teus olhos sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida.


Meu amor, nos momentos mais escuros solta o teu olhar e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, olha-me, porque o teu olhar será para as minhas mãos como uma espada fresca.


À beira do mar, no outono, teu olhar deve erguer sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero teu olhar como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora.


Mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu olhar, porque então morreria."


(Pablo Neruda)


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